quinta-feira, 30 de junho de 2011

Jakarta e sua teia de relações

Esses dois meses em Jakarta foram uma experiência tão surpreendentemente rica que eu fiquei sobrecarregada com a quantidade de informação para processar. Nos últimos dias, fiquei com uma coisa em mente: preciso escrever sobre Jakarta antes de sair de Jakarta, para canalizar toda essa frequência para um texto, que infelizmente nunca será suficiente para descrever e analisar a vida, mas é sempre uma maneira de organizar e sintetizar ideias, algo que adoro fazer.

A noção de experiência é diversa. Para alguns, a experiência é eminentemente visual (e fotográfica, na era digital se você não tiver mil fotos do lugar é porque você não aproveitou). Para outros, a experiência é apenas viver o cotidiano, se misturar e se dissolver no status quo da localidade. Acrescento então mais um elemento a esse conceito, a experiência psicológica. Se o mundo das ideias é onde está a realidade, esse é um tipo de experiência que não podemos deixar de considerar.



Dessa forma, a experiência em Jakarta foi visual e fotográfica, com uma necessária diminuição da quantidade em prol da qualidade; foi também uma dissolução nesse status quo, como algo necessário para fugir ao estereótipo de turista típico; mas foi acima de tudo uma série de choques conscienciais sucessivos, não instantaneamente percebidos por mim.

Em Jakarta, eu descobri sobre os dramas invisíveis da convivência. A tensão de energias colocadas em atrito, buscando subconscientemente e a todo momento um equilíbrio, um denominador comum impossível sem o conflito e o isolamento, que agora sei premissas da construção de uma convivência tranquila visível e invisivelmente.

Em Jakarta, confirmei o pensamento de que a distância nada mais é do que um paradigma. A distância física é superestimada, somos iludidos pelo visível e pelo palpável a ponto de estressarmos nossa mente com paranoias de solidão e de necessidade de estar presente. Mas o que é mesmo estar presente?

Quando eu percebi que vários "problemas" estavam aguardando eu me afastar do Brasil para saírem de suas tocas e demandarem minha atenção, eu não enxerguei claramente toda a teia de situações. Afinal, quando deixamos o emocional em descontrole por um minuto que seja, perdemos momentaneamente a oportunidade de ver o jogo de xadrez como o observador externo.

Algo de que frequentemente não temos noção é qual é nosso impacto nesse mundo. E isso não é determinado pela presença física. Uma vibração direcionada é uma presença, por isso posso dizer que estive na Indonésia e no Brasil ao mesmo tempo.

O conceito de presença é falho porque se baseia naquilo que temos de mais banal: a matéria densa. Se observarmos o quanto nossa mente se desloca em um minuto, ficaremos espantados com a ausência de limites, com o infinito absoluto de possibilidades.

O que é então a verdadeira presença?

Por meio da vibração, você pode ir a qualquer lugar, estar com quem você quiser e sentir que a distância física não existe. A verdadeira presença é o sentir. Se você e o outro vibram em uma mesma frequência, não existe distância.

Em Jakarta, eu também aprendi sobre a surpreendente trajetória das pessoas. Esse conhecimento foi complementar a outro que aprendi em Belo Horizonte pouco antes de vir para cá. Um amigo me ensinou que as coisas têm uma história que vai muito além do que nosso pensamento superficial pode visualizar. Um copo não é apenas um copo. É resultado de um amplo processo, que envolve incontáveis elementos, cada um com a sua própria história, culminando em uma teia de infinitas relações.

Se não paramos para pensar nisso com relação às coisas, que dirá com relação às pessoas, que são muito mais complexas.

Essa complexidade se perde na nossa observação do outro, por uma série de fatores, entre eles a distração, o egoísmo e a ilusão. O primeiro é simples, se estivermos distraídos, sequer perceberemos a existência do outro, menos ainda sua complexidade.

Não pensamos nas pessoas, pensamos nas pessoas e em suas relações conosco. Se essa relação não for aparente, mais difícil fica a percepção do outro. Mas quando há relação, mesmo que mínima, temos em mente o outro em relação a nós.

Ora, o outro em relação a mim não é o mesmo que o outro em relação a você. Então quem é esse outro?

Isso nos leva ao terceiro ponto. A não ser que busquemos viver em consciência e com a totalidade do nosso ser, a "imagem" que temos do outro será frequentemente uma ilusão. Uma referência automática a um conceito que está em nosso interior, e não uma interpretação atenciosa do outro. Esse e outros fatores formam um espesso véu entre o eu e o outro, distorcendo a percepção do eu a respeito do outro.

Um simples objeto remete  a uma insondável teia de relações.

Um ser remete ao universo em sua totalidade. Todos somos um.

Nenhum comentário: