segunda-feira, 22 de março de 2010

Ilhas desertas

Nessas horas em que eu preciso e prefiro me calar, nessas horas em que a boca não se mexe, a voz não sai, o corpo feito pedra não responde nem aos impulsos mais instintivos, nessas horas a voz alheia fere e as investidas deixam mais profundas as feridas. E eu não tenho força para fugir. O tempo escoa lento, ao contrário dos pensamentos que de tão rápidos e vários não chegam a ser compreendidos.

É preciso que eu fuja, é preciso que me esconda, que desvie ou feche os olhos, mas a vida às vezes tem um quê de filme de terror. Os tormentos ficam todos à espreita e, num susto, aparecem na sua frente. E ninguém acredita que se morra de susto. Ainda bem.

Antes eu acreditava que se devesse esgotar tudo antes de partir, todo o amor, toda a raiva, todas as palavras, possibilidades, toda a energia incômoda que parte de um para outro e, às vezes, vice-versa. Não acredito mais. Agora prefiro acreditar em ilhas desertas.

Há sempre aquela pergunta, em que se pretende que você faça uma escolha óbvia: quem você levaria com você para uma ilha deserta?

Ninguém.

Pense na ilha como um lugar para passar uma temporada consigo mesmo, longe da rotina e das pessoas. Apenas você e a sua consciência. Todo o tempo para pensar, refletir, ponderar, esquecer, perdoar, quem sabe até sentir saudades, das coisas boas e ruins. Exercitar e enraizar a paciência, para que tudo fosse diferente ao voltar.

Sim, a ilha deserta é uma utopia. Mas observo que podemos nos mudar temporariamente. Deixar uma ilha e partir para outra, com rotinas, pessoas e dilemas diferentes. Quando enfim voltarmos, muita coisa já terá passado, menos o que for bom e real.

quinta-feira, 18 de março de 2010

No meio do caos

O que fazer hoje?

No meio do caos e da correria do dia a dia, foi essa a pergunta que me fiz hoje. Há milhares de coisas que eu poderia fazer e outras tantas que eu devo fazer, mas fico feliz de ter me permitido essa pergunta.

Em momentos em que tudo vai mal, é comum termos a oportunidade de refletir sobre o que temos feito nos últimos tempos. Tem sido importante? Tem acrescentado algo a nossa existência? Tem valido todo o estresse? Não. Seja lá o que for, não paga o estresse.

Não pretendo ser minimalista, ainda. Entretanto, observemos de maneira simples que, enquanto estamos estressados e obcecados em nossas buscas por dinheiro, sucesso, estabilidade, estamos nos afastando de nós mesmos e de entes queridos e amigos, ou seja, daquilo que realmente pode nos trazer alguma felicidade. É lógico. Se sua mente estiver cheia de preocupações nesse sentido, muitas outras coisas passarão despercebidas. Um exemplo clássico é a própria saúde, que inegavelmente se deteriora em buscas desse tipo, motivadas somente pelo desejo impensado de enriquecer, largamente difundido em nossa sociedade. Pergunte a alguém por que quer ficar rico e obterá o diagnóstico desse problema. Não há motivo, não há razão senão a satisfação pessoal, sempre egoísta.

No meio do caos, é quando o sábio corpo reclama. Porque não basta se alimentar bem, ir ao médico regularmente, ter um bom plano de saúde. É preciso pensar cuidadosamente nas escolhas e em suas consequencias. Valerá a pena todo o estresse para ser rico e poderoso aos trinta, quarenta, se não tivermos saúde para desfrutar? Não deveríamos estar desfrutando do que quer tivéssemos, fosse muito ou pouco, desde sempre? Não deveríamos estar vivendo durante toda a vida?

Talvez o segredo esteja justamente em buscar o contrário: a simplificação da vida. Ganhar menos, ter menos, gastar menos, viver mais. Viver no sentido pleno da palavra, não apenas sobreviver. O discurso agora é minimalista e, muito embora seja de difícil compreensão e mais difícil ainda execução, podemos simplificá-lo até o ponto em que conseguiremos começar a viver de acordo com algo que esteja relacionado à própria vida, no sentido mais espiritual e luminoso da palavra.

 

A esse respeito: the 10 most important things to simplify in your life (em inglês).

Para descontrair:

terça-feira, 9 de março de 2010

Do que é feita a tranquilidade

Duas horas da madrugada. Uma chuvinha fina. O barulho melancólico e ritmado das gotas que caem do telhado em algo que provoca um som oco. Uma certeza: ele não vem. E mesmo se viesse, de que adiantaria? Amanhã e depois também não viria. Dias se passariam como semanas ou meses, se eu me largasse a pensar apenas em seus olhos. Não falo do resto, posto que já não me resta, e não convém que dure pela eternidade.

Ando tranquila pelas ruas, volto à minha vida tão comum e tão normal. Mergulho na minha rotina, estabeleço e cumpro minhas metas. Penso sobre tudo e sobre nada. E quando penso nele, entendo e aceito, porque da mesma forma que me sinto tão bem ao seu lado, como se a vida fosse uma eterna aventura, quando ele desaparece, por razões que não ouso cogitar, tudo perde a cor novamente. Os dias são todos confortavelmente iguais e meu olhar vazio de sentido e sentimento passa a ver vazio em todos os rostos. Fico leve a borboletear por aí, meu olhar a se perder nos horizontes insondáveis da vida, sem se deter aos vazios que me rodeiam e sem poder medir o meu próprio vazio.

15/1/2010