quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Auto-filantropia

Filantropia. Amor à humanidade.

Filantropo. Que ou aquele que trata de melhorar a situação dos homens.

Quando se fala em humanidade, automaticamente pensamos em algo tão mais significativo do que apenas uma vida. Melhorar a situação da humanidade: nada que nenhuma máquina já criada pelo homem consiga fazer, por mais complexa que seja.

Entretanto, se recortarmos a humanidade até sua unidade fundamental, eis que deparamos com o ser humano. Sim, eu, você e todos os outros. Unidades.

O ser humano é essencialmente egoísta. Mesmo quando estamos pensando no outro, pensamos também em nós mesmos. Aparentemente, a nossa característica mais desprezível, somos incapazes de exercer a filantropia.

Entretanto, observando mais atentamente, se nos concentrarmos em nossa própria evolução, estaremos melhorando as unidades do todo e, consequentemente, o todo. Não há como não citar Gandhi, "temos de nos tornar a mudança que queremos ver."

E Fernando Pessoa:
"Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado
a ser outro também."

E Madre Teresa de Calcutá, em outro nível deste tema:
"Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem essa gota o oceano seria menor."

Por vezes, nos sentimos tão imersos em nossos próprios dilemas e crises que acabamos por classificar isso como aquele frio egoísmo de não pensar senão em si. Procuramos então concentrar nossos esforços em algo que pareça maior do que nós. Levamos o olhar ao horizonte, sem conseguir, entretanto, enxergar um palmo dentro de nossos próprios espíritos. Pensamos que, ao entender o dilema da humanidade, compreenderemos magicamente o nosso.

Shakespeare disse: “nada é tão comum quanto o desejo de ser extraordinário”. Não queremos ser simplesmente uma gota no oceano, queremos ter a importância e a força do próprio Poseidon. Contudo, quanto mais observamos dos sábios, dos profetas, dos grandes espíritos que de tempos em tempos surgiram para guiar a humanidade, percebemos que exaltaram sempre a simplicidade.

Se com simplicidade e silêncio procurássemos melhorar nossos próprios espíritos, estaríamos praticando a verdadeira filantropia. Os grandes espíritos não quiseram ser grandes e famosos, apenas agiram de acordo com o que havia em seus próprios corações. Nós podemos perder o olhar no horizonte o quanto quisermos, sonhar e arquitetar os mais completos e complexos planos, ignorando o grito de nossa própria alma, mas enquanto não formos capazes de caminhar na resolução de nossos próprios dilemas, nada poderemos fazer a quem quer que seja, quanto mais à humanidade. Se nos fosse dado perguntar aos grandes espíritos o que caminharam para chegar a tal condição, acredito que nos surpreenderíamos.

Buscar na filantropia a grandeza que não encontramos em nosso interior, nada mais é do que auto-filantropia. O verdadeiro amor à humanidade se expressa, em primeiro lugar, no amor próprio. Ninguém que esteja em desequilíbrio será capaz de ajudar o próximo.  Dessa forma, é muito mais sensato cuidar de si antes de almejar grandes conquistas, ainda mais se buscamos na conquista algum reconhecimento. “Conhece-te a ti mesmo” para, então, lançar-te ao mundo, mas sem que ninguém te perceba pelo barulho e sim pelo exemplo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

2009, o estranho

É com grande contentamento que anuncio o fim do ano de 2009, o ano mais estranho. O ano em que tudo que era tornou-se pó e tudo que não era veio a ser. Apesar de parecer que esse ano demorou dez para passar, não posso dizer que foi ruim, foram experiências e mudanças que valerão por toda a vida.

Acho que lá pelo meio do ano esse ano já era passado. Já tinha valido por uns cinco. Sabe essas experiências que você não quer repetir? Anticorpos fortíssimos. Comparada com a primeira metade, a segunda foi extremamente light. Nem por isso menos estranha. Parece, e eu espero fortemente que sim, que as coisas desse ano foram para ficar nesse ano. Sei que é clichê esperar grandes mudanças só porque um ano novo vai começar, mas, como eu disse, 2009 já passou faz tempo. High hopes para 2010.

Agora é enterrar 2009 com tudo o que teve de estranho. As experiências são as experiências, o nome já diz.

2010 começa com planos, lista de objetivos e muita vontade de fazer o possível para tudo dar certo (acho que essa é a parte mais importante). Fazer planos é sempre uma coisa abstrata, mas pelo menos temos a sensação de que não estamos à deriva (como em 2009). Dica de presente para 2010: um par de remos.

Como o tempo é uma coisa muito abstrata e que talvez nem exista, contradições à parte, 2009 acabou ontem. Feliz 2010!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu quero estar aqui

Eu quero estar aqui a pensar
Eu quero estar aqui a chorar
Nas idas, nas vindas
Nas rasteiras que a vida me dá

Nos cantos em que me escondo
O chão me some e a parede cede
E de repente é só você que aparece
Me estende uma mão que, você sabe,
Eu não consigo ainda agarrar

Como eu queria voltar a ser
página em branco
Que cada dia fosse um nascer
uma nova poesia, um novo canto
e as memórias, livros na estante
livros sem culpa, sem mágoa, sem pranto

Dói a solidão que repara e prepara
E como droga eu uso esse canto
Nessa alma feita de tanto a tanto
Pra parar de arder no meu riso esse pranto

Eu quero estar aqui a pensar
Eu quero estar aqui a amar
Nas idas, nas vindas
Nas vidas que a vida me dá

26 nov 2009