terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fogo

E houve um dia em que não mais te reconheci

Escrevi duas poesias pensando em você
Você nunca saberá
Pensei em você por muito mais tempo
Você nunca saberá
Chorei por você
Num momento de fraqueza - admito
Você nunca saberá

Lágrimas
ainda que sem sentido
caem com a mesma realidade

Sentei-me ao seu lado naquela noite
Foi como se não o tivesse feito
Creio que se tivesse tentado me tocar
Talvez eu não evaporasse

O fogo crepitava com a mesma rapidez dos meus pensamentos
E os insetos voavam ao redor
Enlouquecidos pela luz e pelo calor
Ainda que dentro houvesse frio
Frio que ainda há
Frio que aquele fogo não é capaz de esquentar

Escrevi três poesias pensando em você
Você nunca saberá
Pensei em você por ainda mais tempo
Você nunca saberá
Não mais chorei e não me sinto mais forte

Lancei-me ao fogo e não me sinto mais quente
Lancei-me ao fogo e só me sinto gelar
Lancei-me ao fogo e te sinto gelar, sublimar-se e sumir

Apenas queria que soubesse

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Borboleta

No dia em que te conheci,
uma borboleta entrou em minha casa

Eu, que havia deixado a armadura lá fora,
e de olhos fechados, exposto minha alma
ao teu ser etéreo, translúcido, universal,
entendi que então entrava,
mãos dadas contigo,
numa dimensão outra, transcendental

Quem me falava, teu eu distante
na verdade da consciência
E teu espírito ao meu dizia,
pela vibração que me elevava
até onde não compreendia

Flutuando à meia distância
entre o que é carne e o que é divino
voltei metade à carne e fiquei alma nos céus
em êxtase divino

Vez ou outra, sem ti, procuro a poesia
Voltaste à carne e nela te esqueceste
Quisera poder ler - a ti - a poesia,
aquela que separa, eleva e sublima
Corpo, alma, poesia

No dia em que te conheci,
uma borboleta entrou em minha casa
Borboleta-poesia
no íntimo do meu ser que se elevou alma

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Flores do caos

Pela conexão dos animais com a natureza, eles sabem e se agitam quando o perigo está próximo. Pela conexão do ser humano com a natureza, ele sabe e se agita quando o perigo está próximo. Pensa, logo pensa demais e nega o perigo até ele se tornar visível o bastante para não poder mais ser ignorado. Na negação, agita-se demasiado e desnecessariamente, para sofrer mais com o perigo visível o suficiente. O perigo inexorável, na cabeça do ser humano em negação, não é tão perigoso quanto a falta de determinação para transformar o perigo em uma não-verdade. E o perigo inexorável aos olhos de quem não o quer ver pode não ser tão implacável quanto a inexorabilidade de quem o não-vê. Opção. O perigo está lá e todo o perigo é a mudança.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A poesia do momento

Eu vivo e revivo os momentos
Leio e releio as poesias
Penso e repenso os versos
Repito em voz alta as rimas
Declamo uma e outra vez
Do início ao recomeço
Meio sonho, meio realidade

Fecho os olhos pra não dormir
E observo como vibra em mim
Toda a poesia do teu olhar

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Procurar ou não procurar?

"Nada é tão comum quanto o desejo de ser extraordinário."
Shakespeare

É muito reconfortante sentir orgulho. Como se o orgulho fosse algo que nos mantivesse coesos, fortes, inquebráveis. Sentimos orgulho de ter orgulho. Ponto.

Gosto de observar as situações em que não há como sentir orgulho ou algum de seus disfarces. Obviamente, nenhuma delas acontece à luz do dia, de 8h às 18h, em tais ou tais eventos sociais, pois lá estamos representando nossos melhores papéis. Situações orgulho-free acontecem muito mais introspectivamente, à meia-luz, nas madrugadas, à beira da loucura, à beira do abismo e, com alguma sorte, podem acontecer entre duas pessoas. Nada convencional.

Não me surpreende que só passemos a viver realmente quando deixamos o orgulho de lado e fazemos as coisas que envergonham nosso ser superior interno. Porque o que ele quer está bem impresso em nossos discursos, sabemos muito bem explicar, justificar, o que seja. Simples assim? E aquilo que nós fazemos quando não conseguimos mais aguentar nosso próprio joguinho de orgulho? É aí que mora a vida. O resto é teatro.

Para refletir, então, sobre que tipo de pessoas nós procuramos, precisamos saber com o que procuramos. Com orgulho ou sem orgulho?

Sentimos algo por todas as pessoas que conhecemos, banalidades. O que me interessa é quando sentimos algo mais forte, um desejo de estar perto, de conversar, de tocar, de examinar, quase cirurgicamente, esse outro que surgiu em nossas vidas. Em geral, nesses casos mais intensos, queremos que haja reciprocidade. É engraçado o fato de nós não andarmos por aí como vários livros abertos. Como saber então, se há reciprocidade?

Agora é que entra a ação. E que linha de ação você prefere? Livre ou restrita pelo seu grande orgulho de ser uma pessoa incrivelmente superior que não pode se deixar expor? Apesar de você ter ouvido o som de um tapa na cara, não é. Se você não está cheio de mais nada, você está cheio de si. Onde te falta o resto, te sobra o tão falado orgulho. Não é um mistério nem uma ofensa, é a famosa natureza humana.

Os tapas na cara, agora sim, que levamos por agir independentemente do nosso orgulho, fazem de nós seres humanos ilimitados, livres, íntegros e verdadeiros. É uma liberdade indescritível.

Cada um, a seu tempo, irá quebrando as barreiras do seu próprio orgulho. Pretensão querer ordenar que se quebre seja lá o que for do orgulho alheio. Cada um cuidando do que lhe pertence.

Dessa forma, fica a questão... procurar alguém é invadir o seu espaço? Posso querer derrubar uma barreira do meu orgulho e procurar alguém que quer ser encontrado. Mas qual será a desculpa para procurar alguém que não quer ser encontrado? Na era da comunicação instantânea, quando optamos pelo isolamento, é melhor que sejamos deixados lá. Não é trabalho de ninguém saber por que nos isolamos. Quando nós quisermos nos expor verdadeiramente ao mundo, o faremos.

Se eu escrevo para me defender? Não. Escrevo para expor a mim mesma as barreiras do meu próprio orgulho.