quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O sol que me consome

Eu quero levar alegria ao mundo
À minha maneira

Quero provocar todos os seus sorrisos
E vê-los todos muito mais de uma vez
Sempre

Quero que você se surpreenda sempre
E depois diga
"Eu sabia"

Quero passear na chuva com você
Naquele dia em que você estiver
Bem, bem doente

Quero te deixar acordado até tarde
Quando você tiver que acordar
Muito, muito cedo

Quero jogar a TV pela janela
Dirigir em alta velocidade
Sair por aí sem rumo

Quero te levar até onde você nunca foi
Se vc ainda não correu, vamos correr até cansar
Vamos ver o mar, as estrelas, a lua, as constelações

Bem de perto

E vamos ver também o sol

Bem de perto
Bem de perto

O que me move
É o que me consome

O sol que me consome

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Eu ouço minhas músicas favoritas do passado
Elas me lembram de um tempo em que eu nem mesmo existi
Nem eu nem vocês
Mas se você pára pra ouvir
A música te leva até lá

E vão retornando numa brisa morna todos aqueles sonhos que você não sonhou
Todo aquele sangue que vc não derramou
Todos os ideais que você não teve
Tudo volta na brisa quente do passado que se repete e que não volta mais

Os ideais são outros
Nós somos os mesmos
Nós somos outros
Os ideais são os mesmos

Nós somos os outros
O passado é o mesmo
O passado é outro
O futuro é o mesmo

Nós nos perdemos no passado daqueles que se perderam no nosso futuro

Passado?
Presente?
Futuro?

O tempo não existe
A vida corre num rio interminável
O tempo é a consciência

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Lágrima

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
[Saint-Exupèry]


O reflexo cor de rosa pálido do céu de fim de tarde nas ondulações calmas do lago. As águas que correm agora jamais serão as mesmas. Tudo que carregam para longe, lá ficará, não voltará mais.

Anti-romântica, a natureza acontece indiferente. Seus tons verdes, róseos, azuis, roxos, vermelhos tanto podem acompanhar a tristeza como a alegria. O cenário do encontro e da despedida é o mesmo, apenas nós somos outros, mudando a cada instante.

Se no mundo só eu existisse, não seria capaz de mudar, e a vida não teria sentido. Ainda que, em certos momentos, eu não sinta o mundo existir à minha volta, as horas passam, as pessoas passam, a história segue e cada coisa influencia outra, como uma enorme teia.

Mas antes de tudo, de toda a tristeza e de toda a alegria, é preciso não sentir vergonha de ser humano. É preciso reconhecer a importância de ser humano. Antes isso ao vazio, mais frio que a mais fria das noites daqueles que sentem.

No lago, o primeiro céu da noite que antecede muitas noites, azuis, escuras, iguais, indiferentes. Em mim há uma noite escura e cruel, esperando, gélida, pelo amanhecer.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Era uma mulher feia, via-se logo. Os dentes, estragados e amarelados pela idade e pelo hábito de fumar, eram o que primeiro se via de sua aparência. Fora isso, era uma mulher de feições comuns, nem magra nem gorda, nem nova nem velha, cabelos pretos de tinta e lisos. Vestia roupas normais, que não pioravam nem tampouco melhoravam seu aspecto.

Muito embora eu repudie o hábito do fumo, passei a admirar aquela mulher que vinha todos os dias à tarde fumar à porta de meu local de trabalho, sem deixar de me cumprimentar uma vez sequer, com um sorriso sincero e amigável, desde que passamos a trabalhar no mesmo prédio.

Creio que até hoje ela não sabe meu nome, eu também nunca me dei ao trabalho de me apresentar ou de perguntar seu nome, e se trocamos dez palavras foi muito. Mas tenho certeza de que compartilhamos da mesma simpatia, natural e gratuita, como são todas as simpatias.