segunda-feira, 28 de julho de 2008

Série Trechos de Músicas - Nº 01

"When night comes down, you lock the door.
The book falls to the floor."
[Pink Floyd - A Pillow of Winds]

A poltrona ficava perto da janela. Da janela se podia ver o campo que se estendia, em declive, do fundo da casa até a estrada que passava por ali, a única que chegava e saía daquela cidade. Todos os dias, às cinco horas da tarde, eu me sentava nessa poltrona e lia. Lia os mesmos livros de há vinte anos, ao ponto de decorar as passagens mais marcantes. De vez em quando, elevava os olhos até o campo, até a estrada, e parecia continuar a ler sem olhar para o livro.

E assim meu olhar se perdia por aqueles campos, pelas flores, pela grama. Às vezes ia com os raros carros que passavam pela estrada e voltava com outros mais raros ainda.

Então o sol começava a se pôr e a me trazer de volta para mim. Levantava, olhava em volta, registrava cada móvel da sala. Todos estiveram sempre no mesmo lugar, pareciam entes que repousavam, cheios de memória e de melancolia. Andava entre eles solenemente, respeitando cada lembrança.

Com a porta já trancada, voltava à minha poltrona. Com o livro no colo, apenas à luz do por do sol, olhava pela janela a chuva fria e fina que começava a cair. As gotas pareciam as palavras de um livro. Lia-as até que o livro tombasse ao chão, provocando um som, que abafado pelo tapete, não chegava a me despertar.

domingo, 6 de julho de 2008

A Jornada

Não, eu não estou bem. Por que estaria? Você está bem? Não. Nem eu, nem você, nem ela, nem ele, ninguém está bem. Entretanto, isso não quer dizer que sejamos ingratos.

Eu não estou bem, mas agradeço a Deus por tudo que tenho, absolutamente tudo, inclusive as dores e os sofrimentos. Agradeço por tudo que sou e pelo que trabalharei para ser.

Por que mentir para o mundo e dizer: 'estou bem!', 'estou feliz!'? Por que não encarar a sua própria dor e aceitá-la como algo que te fará aprender, mudar, evoluir?

Pouquíssimas pessoas são felizes realmente. Muitíssimas fingem que o são para fugirem da árdua tarefa de se auto-conhecer. Qual o sentido da vida? Por que estamos aqui na Terra? Por que nascemos?

"Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo." [Hermann Hesse - Demian]

Vivemos para que possamos ter a oportunidade de chegar ao auto-conhecimento. Não é outro o sentido da vida. Pois absolutamente tudo passa pelo auto-conhecimento.

Se ferimos, matamos, choramos, sofremos, é porque não nos conhecemos, não sabemos dos nossos limites e os ultrapassamos. Buscamos a felicidade sem saber o que ela é para nós.

Porque a felicidade existe para aqueles que já se conhecem e, por terem esse conhecimento, conhecem os outros e sabem respeitá-los, vivendo em harmonia consigo mesmos e com o mundo.

Seguimos em busca do auto-conhecimento, que não é algo impossível, é apenas trabalhoso. Pois fazer o mal é extremamente fácil, mas repará-lo, fazer o bem, é algo totalmente diferente.

Ao mesmo tempo em que a esperança te faz levar os olhos para o alto e sonhar com uma consciência tranqüila, a dor, que te leva embora a respiração e te faz envergar o corpo físico, te lembra do longo caminho ainda a percorrer.

Desistir? Jamais.