Como é fazer a messma coisa todos os dias? Seria isso necessidade de segurança?
Sentada na lanchonete, eu observo aquele cara não tão velho. Ele toma o mesmo café da manhã todos os dias desde que eu comecei a trabalhar aqui. Ele quase segue um ritual. Entra, compra um jornal, senta-se e espera pela comida, que o garçom já está trazendo. Ele deve ter feito o pedido no máximo umas três vezes. Então ele come, lê, bebe o café, que vem sempre um pouco depois, levanta-se e sai.
Hoje eu observei que ele deixa o jornal. Se perguntarem algum dia a ele o que come no café da manhã, ele vai dizer: "Torradas, queijo, café, água e jornal". Sim, o jornal faz parte do ritual e é deixado para trás como sobra.
Nós fazemos isso muitas vezes, mas confesso que nunca observei um caso tão significativo. Jamais o vi pedir outra coisa sequer. Então novamente me questiono, o que provoca tal comportamento?
Quando peço sempre a mesma coisa, faço-o porque já conheço aquela tal coisa e, portanto, já sei que é boa, não preciso me arriscar. Quando vario o pedido e não gosto do que pedi, recrimino-me por ter mudado de ideia. Quando vario o pedido e gosto do que pedi, passo a pedir sempre a nova coisa, se for melhor que a anterior.
Isso demonstra que estamos sempre resistindo às mudanças, apesar delas serem às vezes inevitáveis.
Se um dia o garçom trouxesse àquele cliente um pedido diferente, ou fizesse uma pequena mudança no pedido, o que aconteceria?
Uma vez colocaram orégano no meu misto quente, algo que eu não tinha pedido. Senti-me levemente indignada, o quanto se pode estar numa situação simples como essa. Eu, que ainda me permito mudar, senti-me indignada. O que sentiria ele, que não se permite mudar?
Rejeitaria o pedido com mudanças e mandaria trazer o certo. Alegaria que, pela assiduidade da presença dele ali, tal ato não se justificava. Sequer experimentaria. Seu delicado equilíbrio foi quebrado. Todo o seu dia estaria comprometido por causa daquela pequena falha no ritual. Sentir-se-ia inquieto até que tudo voltasse ao normal. Meditaria ainda por algumas horas sobre aquele incidente e, quando voltasse à lanchonete na manhã do outro dia, sempre no mesmo horário, um calafrio percorreria-lhe a espinha. Ousaria o garçom cometer novamente aquele erro? Só restaria a ele comprar o jornal, sentar-se e esperar, mas dessa vez com os olhos por cima dos papéis, espionando a atividade do garçom. Não descansaria enquanto não visse o seu pedido impecável sobre a mesa. E, após certificar-se de que tudo estava correto, seria capaz de finalmente relaxar, comer, ler, sair, trabalhar, ir para casa, dormir, acordar, escovar os dentes, vestir-se, sair, estacionar, entrar, relaxar, comer, ler, sair, trabalhar, ir para casa, dormir, acordar, escovar os dentes, vestir-se, sair, estacionar, entrar, relaxar, comer, ler, sair, trabalhar, ir para casa, dormir, acordar, escovar os dentes, vestir-se, sair, estacionar, entrar... e assim sucessivamente até o fim dos tempos.
Acho que às vezes confundimos prisão com segurança. Encarceramo-nos em nossas rotinas e passamos a viver à margem de nós mesmos. O que somos capazes de fazer a pretexto de segurança? O que somos capazes de perder a pretexto de segurança?
Por isso, vale a pena repetir:
É impressionante como nossas vidas mudam nesse instante.Eu vejo nos seus olhos, ouço nas suas palavrastudo aquilo que eu pensava por tantas madrugadasna loucura de uma palavra,sem querer pensar no amanhã,por que o que seria do amanhã sem esse momento?O quanto nós perderíamos?